Biografia recupera trajetória de Vadico, o maior parceiro de Noel Rosa

Livro de Gonçalo Junior retrata Vadico, um dos grandes compositores do país e coautor de clássicos como Conversa de botequim, e tenta mostrar que ele foi mais do que só parceiro do Poeta da Vila

Correio Braziliense

O melhor parceiro de Noel Rosa. Foi assim que Vadico ficou marcado na história da música popular brasileira, que relegou a ele um lugar de pouco destaque. No entanto, mais do que isso, ele foi um dos grandes compositores brasileiros, reconhecido por nomes como Vinicius de Moraes e com carreira de 15 anos nos Estados Unidos.

É isso que defende, além de revelar diversos detalhes e novidades sobre Vadico, a biografia Pra que mentir?. Assinado pelo jornalista e escritor Gonçalo Junior, o livro é o mais completo documento sobre a história e a obra de Vadico, da parceria com Noel Rosa aos tempos nos EUA e aos problemas de saúde do compositor.

Antes de escrever o livro, Gonçalo havia biografado Assis Valente (compositor de Brasil pandeiro) e de Evaldo Braga (quem não se lembra de “Sorria, meu bem”?). Os dois tiveram histórias trágicas e impactantes. “E Vadico me pareceu um enigma, também um personagem a ser desvendado. Seria muito fácil pegar alguém como Lamartine Babo, Ary Barroso, Nelson Gonçalves, em que tudo está aí”, afirma.

Quando faz pesquisas para algum projeto, Gonçalo deixa catalogadas informações sobre outras pessoas que fazem parte da trajetória dos biografados. Parte do material sobre Vadico veio daí, mas não havia muito sobre ele. “A pesquisa foi insana, o problema maior é que havia pouca coisa em muitos lugares”, comenta.

Foram oito meses de escrita, mas o material que deu base para o livro veio do trabalho de duas décadas. “Todos os dias eu entro em sites caçando livros, discos, partituras, por exemplo. Você vai juntando as peças, fica bastante caro, porque material custa muito. No fim, é mais satisfação pessoal do que qualquer outra coisa”, conta.

O acesso a esse material e o contato com alguns familiares, no entanto, permitiram que Gonçalo escrevesse um livro com diversas informações novas sobre o compositor e que ajudasse a entender melhor quem era e qual foi a importância de Vadico: “As dívidas que a história da música popular brasileira tem com ele são imensas. Ele sempre foi chamado de o tal do parceiro de Noel Rosa, só isso.”

Direitos autorais

Vadico ficou marcado pela polêmica sobre direitos autorais. Quando voltou ao Brasil, ele percebeu que Noel (àquela altura já morto) havia vendido as parcerias (como Conversa de botequim, Feitiço da vila, Pra que mentir?) sem seu consentimento e foi atrás de entender o que havia acontecido.

O apresentador Flávio Cavalcanti soube da história nos bastidores de um programa de que Vadico participaria e levou a polêmica para a tevê, criticando duramente Noel. O fato gerou polêmica e o Poeta da Vila foi defendido pelo radialista Almirante. “Vadico foi muito criticado. Principalmente pela habilidade de Almirante com a palavra, ele botou Vadico no bolso. Vadico era tímido, todo formal, de conversar pouco. Ele não conseguiu se defender direito”, explica.

Gonçalo ressalta que, apesar de tudo, Vadico sempre tentou manter o respeito ao parceiro. “Ele sempre foi muito correto com Noel, ele sempre foi muito cuidadoso em apenas lamentar.” O título do livro, explica o autor, é uma espécie de provocação a Noel. “Veio da parceria deles e é como se ele perguntasse: ‘Por que você mentiu?’ O livro é uma tentativa de resgatar a verdade.”

No exterior

Entre as histórias apresentadas por Gonçalo estão algumas da passagem do compositor pelos EUA. Lá ele trabalhou em filmes de Carmen Miranda e em animações da Disney. “Foi ele quem introduziu Aquarela do Brasil, entre outras músicas, nos filmes da Disney. Ary Barroso se tornou mundialmente conhecido, principalmente por causa de Vadico, mas ninguém fala disso”, assegura Gonçalo.

Em terras norte-americanas, ele teve contato profundo com o jazz. Passou anos tocando com grupos do estilo. Quando voltou ao Brasil, juntou tudo isso ao samba. “Ele traz e adiciona elementos do samba, ele chamava isso de samba ligeirinho, era um samba jazz que ele adorava. Sempre fazem questão de dizer que ele não teve nada com a bossa nova, mas ele teve, sim, ajudou. Ele só não foi um dos pais por causa de problemas de saúde”, acredita.

Outra história que Gonçalo faz questão de desmistificar é a recusa de Vadico ao convite de Vinicius de Moraes para musicar Orfeu da Conceição. “Se escreve que Vadico amarelou, que disse que não tinha competência e que não estava à altura, mas não é a verdade. Vadico poderia muito bem ter ocupado esse lugar. Ele tinha acabado de sofrer o terceiro infarto, não tinha condições físicas para isso.”

Vadico voltou ao Brasil porque teve dois infartos nos EUA. Os médicos lhe recomendaram uma dieta rigorosa e pediram que ele mudasse o estilo de vida. Os problemas com direitos autorais, no entanto, fizeram com que ele optasse pelo caminho contrário.

“Ele chuta o pau da barraca, afunda no alcoolismo e fuma demais. A questão com Noel estava em grandes jornais, ele se dizia boicotado e passou a viver assim.” Os hábitos custaram caro. Em 1962, ele se sentiu mal durante um jogo do Brasil na Copa do Mundo. Seis dias depois, morreu no estúdio nos braços do sambista Wilson das Neves.

Além da polêmica, Gonçalo mostra que Vadico se sentia profundamente incomodado com o rótulo de parceiro de Noel. “Ele era atormentado por isso e queria provar para todo mundo que era um grande compositor. E ele era. O problema é que ele não conseguiu encontrar outro Noel Rosa, um outro letrista tão bom, que estivesse à altura dele.”

Fonte: Correio Braziliense


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